ENTREVISTA A PAULO CHITAS E DANIEL RICARDO (VISÃO)
Data da entrevista: 11/11/2009
Local: Redacção da Visão
Objectivo: clarificar a influência da Comunicação Social numa investigação criminal
(Para leres as CONCLUSÕES da entrevista, clica AQUI)
1. Como obtêm as primeiras informações sobre um caso?
Paulo Chitas (ex-editor da secção Sociedade da Visão) - No caso da Visão que é uma publicação semanal na maior parte das vezes é através da outra imprensa, dos outros órgãos de comunicação social. Será diferente com a imprensa diária, por exemplo. Mas no caso da Visão é sobretudo através da outra imprensa, da imprensa diária, da rádio e das televisões. Não anda propriamente à procura dessas informações, como outras publicações, por exemplo o Correio da Manhã, que produzem muita informação nessa área e que portanto terão as suas fontes, na polícia, que lhe permitem obter informações em primeira mão sobre esses assuntos.
Daniel Ricardo (Director Executivo da Visão) – É diferente nos casos de colarinho branco.
Chitas – Pois, eu estou a falar-lhes dos outros tipos de crimes, porque na secção da Sociedade fazemos a cobertura de crimes que envolvem violência, violência contra as pessoas, mais do que fazer a cobertura do outro tipo de criminalidade, da criminalidade de colarinho branco, corrupção, favores. Normalmente é a secção de Portugal, que é outra secção da revista, que faz a cobertura desse tipo de assuntos.
Daniel – Eu posso acrescentar mais qualquer coisa. Para se fazer a cobertura desse tipo de crimes, que envolvem gente importante e necessário ter boas fontes, ter fontes ligadas à justiça, à policia judiciaria. E nós temos redactores, nomeadamente o Tiago Fernandes, que têm essas fontes. Porque reparem, tal como o Chitas disse, nós somos muito selectivos a escolher os crimes, para nós nem os crimes nos servem. Têm ser mesmo um crime daqueles com muito drama, com muito sangue para a gente lhe pegar, se não pegamos. Ou ter alguma característica especial, como aquele, aqui há dias, em que um Candidato matou outro candidato, se não nos interessa.
A não ser quando decidimos fazer uma espécie de radiografia da criminologia em Portugal, aí sim apresentamos vários exemplos para suportar as ideias.
No caso dos crimes de colarinho branco é completamente diferente. Enquanto somos muito selectivos no que diz respeito aos crimes de sangue no caso dos crimes de colarinho branco não, porque são todos importantes: crimes económicos, fraudes que envolvem muitas vezes dinheiros do estado, que são dinheiro de todos os cidadãos. Aí já é preciso ter fontes, muitas vezes fontes que não podem ser identificadas, é preciso estar dentro daquilo que acontece. Mas, mesmo aí, muitas vezes arrancamos a partir do que os outros já deram. E porque? Porque os outros saem mais cedo, pura e simplesmente.
Mas reparem, há sempre quem se interesse que estas coisas sejam publicadas. Pelas razoes mais variadas: ou porque convém para os seus interesses pessoais, ou por uma questão de cidadania, porque acha que vigarices dessas devem ser denunciadas, enfim, por uma razão qualquer há sempre quem queira que as vigarices sejam denunciadas. E como normalmente as pessoas que funcionam nesses meios das autoridades conhecem jornalistas. Telefonam a um jornalista conhecido e contam o que se está a passar. Muitas vezes o ministério público ou a própria polícia judiciária tomam a iniciativa de comunicar aos jornais, embora anonimamente, aquilo que andam a investigar. Para que? Para mediatizar os casos, porque sabem que mediatizando os casos eles não podem ser escondidos.
Portanto, ou são as fontes que tomam a iniciativa de nos avisar para determinados processos ou determinadas investigações nesses contexto de colarinho branco, ou vemos que, entretanto, no Público que saiu na sexta-feira vem uma manchete qualquer, e aí partimos para a investigação.
2. Como verificam a credibilidade das informações, sobretudo quando se tratam de fontes anónimas?
Daniel – Não, são anónimas mas para nós não são anónimas. Isto é, não podemos identifica-las quando damos as notícias, mas sabemos muito bem quem as fontes são. Aliás é uma regra de ouro do jornalismo nunca dizer quem foi a fonte anónima que nos passou a informação. E podemos inclusivamente ir a tribunal, e isso já aconteceu, o juiz obrigar-nos a dizer qual é a fonte, e nós preferirmos ir presos a dizer qual é a fonte que nos deu informações.
Chitas – Em rigor, em rigor, em última análise, eu acho que os próprios jornalistas desconfiam muitas vezes das informações que recolhem e que, por vezes, publicam. Há situações em que não se consegue aplicar à informação recolhida o protocolo que permite aos jornalistas verificar se a informação é jornalisticamente válida. Esse protocolo sintetiza-se muito rapidamente: Uma informação é jornalisticamente valida quando um jornalista a consegue confirmar junto de duas fontes, independentes, que não têm uma ligação entre si. Precisamente para despistar os casos em que as pessoas possam ter combinado contar as duas a mesma história ao jornalista.
Mas, em muitos casos, sobretudo na criminalidade mais complexa, na criminalidade ligada a corrupção e a casos de colarinho branco, as principais fontes de informação são as fontes que estão ligadas à investigação. Ora essas pessoas normalmente não falam em on, falam em off, nós sabemos perfeitamente quem são mas não podem ser identificadas no texto, e muitas vezes não há forma de verificar a informação, de aplicar este protocolo que eu enunciei. Em última instância, o jornalista tem de confiar na fonte; é essa relação de confiança que valida a informação. (…)
Contudo, admito – não só admito, tenho a certeza – que muitas vezes essa relação de confiança não é mantida pela fonte e que, nessas situações, o jornalista é manipulado.
Daniel – Já agora, e uma vez que o Armando Vara tem andado na boca do Mundo, vou contar-vos um episódio curioso que não há muito tempo se passou com ele. Ele foi acusado de questões de desvio de dinheiro ou qualquer coisa desse género numa fundação que tinha criado que se chamava Fundação para a Prevenção Rodoviária Portuguesa. Quando tudo isto foi publicado, o Armando Vara telefonou para a nossa redacção e a redacção da Rádio Renascença, e disse que se ia demitir, que podíamos publicar mas não podíamos revelar a fonte. A Visão acabou por não publicar, mas a Rádio Renascença pôs no ar a informação que, segundo fontes próximas, o Armando Vara se ia demitir do Governo. Acontece que no dia seguinte o Armando Vara convocou uma conferência de imprensa para desmentir a Rádio Renascença. Porque é que eu estou a contar esta história? Porque entre as várias intenções da fonte pode estar esta, que consiste em lançar aquilo a que nós chamamos um “balão de ensaio”, ou seja, lançar uma informação para ver as reacções que daí advêm. Ora, o nosso Código Deontológico dos Jornalistas abre uma excepção nestes casos: quando a fonte manipula o jornalista, pedindo o anonimato, o jornalista tem autorização do Conselho Deontológico para revelar a sua identidade. Foi o que a Rádio Renascença fez: pediu autorização ao Conselho para denunciar a fonte e pôs no ar que a fonte era o próprio Armando Vara. A partir daí, o senhor ficou, claro, um pouco queimado entre os jornalistas.
Aí está uma coisa que nos ajuda a compreender se a fonte é credível ou não: o seu historial, o seu histórico. Uma pessoa que tem, nas suas relações com os jornalistas, um caso como estes, nunca mais será uma fonte credível para qualquer jornalista que se preze.
Chitas – Embora grande parte da informação se baseie nessa relação de confiança, o jornalista deve, face à informação que recolhe em qualquer circunstância, criticar; tem que sujeitar a informação ao crivo da crítica. Sempre. Tem que, profissionalmente, considerar que todas as informações que recolhe são susceptíveis de terem sido produzidas por alguém que tem um interesse. Tem que pesá-la, pô-la num contexto. Para isso, uma das tarefas fundamentais é inteirar-se das circunstâncias da fonte que produziu essa informação: tem que saber dados sobre a fonte, se é casado, se é solteiro, se é do partido X ou do partido Y, se é católico, muçulmano, se está ligado à opus dei ou à maçonaria, quem são os seus amigos, os seus inimigos, … Inteirar-se destas informações acerca da fonte é uma forma de pôr em perspectiva a informação que ela está a produzir e de tentar, de alguma forma, perceber até que ponto aquela a mesma é dada com uma intenção, com um objectivo. Pode-se, muitas vezes, através desta recolha de informação adicional, perceber qual a natureza da intenção da fonte quando diz determinadas coisas. Por exemplo, no jornalismo político isso é muito importante. Tem que se averiguar quais as circunstâncias da fonte e esse processo de crítica é muito importante para que o jornalista não se deixe manipular.
3. Durante a investigação de um caso, têm de comunicar tudo à polícia judiciária?
Chitas – Não, nem em todo nem em parte. Não tem de ser comunicado nada. Um jornalista não trabalha para a polícia, um jornalista trabalha para um órgão de comunicação social ou trabalha para um trabalho que está a desenvolver e que pretende vender a um órgão de comunicação social qualquer. Não é um investigador da polícia. É, no entanto, um cidadão que está sujeito às mesmas leis que os outros cidadãos, por isso, se tiver conhecimentos que o levem a supor, com credibilidade, que um crime vai ocorrer ou, se no âmbito de uma investigação jornalística, descobrir, por exemplo, que determinadas pessoas planeiam assaltar uma dependência bancária daí a dois ou três dias, tem a obrigação de comunicar à polícia essa informação, até porque está obrigado a isso como cidadão. Tendo conhecimento da intenção de praticar um crime, deve comunicar às autoridades, para evitar que esse crime ocorra. É apenas a isso que ele está obrigado, como qualquer outro cidadão está obrigado. Enquanto jornalista, não está obrigado a fornecer nenhuma informação à polícia, pelo contrário. Muitas vezes tem de salvaguardar e proteger as informações da polícia, porque, senão, põe em causa certas fontes de informação que tem.
Daniel – Também é preciso ver que isto não é assim em todo o lado, em todos os países, e não foi assim em Portugal até ao 25 de Abril. Eu tenho experiência pessoal. Num crime que investiguei, mataram um juiz conselheiro do Supremo Tribunal administrativo, e eu fui encarregado de fazer essa investigação e soube coisas, na investigação que fiz, que a polícia não sabia. Então, fui chamado à Policia judiciária (curiosamente o inspector que falou comigo tinha sido meu colega em Direito) e ameaçou-me de ser preso, porque estava a obstruir a justiça, se não contasse à polícia judiciária como é que tinha descoberto que alguém tinha guardado uma bota e uma boina castanha, que não se sabia onde paravam, deixadas pelo criminoso no local do crime. A primeira pessoa a descobrir o corpo foi um bombeiro, e foi esse bombeiro que tinha guardado a boina e a bota que ali estavam. E eu perguntei-lhe “Então o que é que você fez à boina e ao sapato que ali estavam?” “Eu sei lá, eu queria era ajudar o homem!”, “Então vamos lá ver se ainda lá estão”, disse eu. “Ah já não lá estão que a polícia já lá esteve”. Mas a polícia não tinha ainda estado no local do crime, o que é espantoso, e quando eu lá fui com o bombeiro já não havia nem bota nem boina. E ele disse “Você não diga a ninguém que eu disse isto que ainda me metem em chatices”. Eu na peça que escrevi dava a entender que o criminoso podia ser um militar, e a polícia chamou-me lá e ameaçou-me porque eu estava a obstruir a justiça. Agora já não acontecem, felizmente, essas coisas. Agora podemos mandar, soberanamente, a polícia dar uma curva num caso desses.
Chitas – Imaginem que um jornalista tivesse de fornecer à polícia a informação que recolhe no âmbito de uma investigação que realiza. A partir do momento em que isso se soubesse, em que fosse do conhecimento público, como é que um jornalista continuava a recolher informação? Evidentemente que as pessoas deixavam de aceitar conversar com ele sobre um assunto qualquer. Se sabiam que aquilo tudo ia parar à polícia, porque razão é que as pessoas iam falar connosco?
Se, por absurdo, isso acontecesse, acabava metade da actividade dos jornalistas no país. A liberdade da actividade de um jornalista e a sua autonomia face a quaisquer poderes é absolutamente essencial, porque, se não, ele não pode exercer a sua profissão, as suas capacidades de investigador, de recolher informação, e de as transmitir aos leitores, aos espectadores ou aos ouvintes.
4. Existe um grupo de jornalistas que se dedique especialmente à investigação criminal? Há algum tipo de formação nesta área?
Chitas – Sim. Na Visão, por exemplo, há pessoas que são especializadas nessa área. Porque é que é importante que nessa área exista algum tipo de especialização? Porque é muito importante que haja fontes de informação na área de Justiça ou do aparelho judiciário para que a produção de boa informação sobre esses assuntos seja possível. Ter boas fontes numa determinada área não é algo que se faça rapidamente, com um estalar de dedos. É preciso dar-se a conhecer e conhecer as pessoas, para que possa existir uma relação de confiança entre elas e o jornalista, que permita a este obter informação privilegiada sobre um qualquer crime que esteja a ser investigado. Isso requer, portanto, uma certa especialização e dedicação por parte do jornalista. Na Visão, temos pessoas que se especializaram na área da criminologia, principalmente em crimes de “colarinho branco”. Esta é das áreas onde a especialização é mais determinante. Podes fazer um texto sobre Educação sem seres especialista em Educação e sem teres grandes fontes na Área… porque os pais falam, os professores falam, os alunos falam… circunstancialmente pode ser difícil, mas normalmente falam. Agora, os magistrados não falam sem te ter conhecido num qualquer congresso de justiça, sem saber quem és, sem ter falado contigo antes.
É uma especialização que se adquire mais através da prática, muito importante para te abrir portas e te dar acesso a fontes. A prática é essencial, é como uma almofada para te lançares.
5. Existe troca de informação entre jornais, revistas e outros meios de comunicação durante a investigação do mesmo caso?
Chitas – Se a investigação for conduzida por mais do que um órgão de comunicação social, sim, isso pode acontecer. Pode estabelecer-se um “acordo de cavalheiros” entre os jornalistas que estão a realizar a investigação, onde ocorre troca de informações. Quando há publicações que pertençam ao mesmo grupo de comunicação social, como, por exemplo a Visão e a SIC, estas podem realizar em conjunto uma investigação, que, depois dá origem a um artigo na Visão e a uma peça televisiva na SIC. Há, portanto, partilha de informação.
Os jornalistas, no entanto, trabalham normalmente para um órgão de comunicação social e por vezes são obrigados a preservar o que descobrem, manter as informações que recolhem para produzir textos ou peças de televisão que não tenham sido publicadas ou emitidas em quaisquer outros órgãos. A originalidade da informação, o facto de sair em “Primeira mão”, é valorizado pelo público.
6. Em que ponto pára a liberdade de expressão e começa o segredo de justiça? Acha que o jornalismo, hoje em dia, é muito condicionado pelo segredo de justiça? Como encaram a polémica que, por vezes, se desenrola à volta do segredo de justiça?
Chitas – Pode existir segredo de justiça sem impedir a liberdade de expressão, esta é um conceito muito vago. Podes ir para a rua e dizer que és contra os comunistas e não és presa por isso. Felizmente em Portugal, desde 1974, isso é possível. O que o segredo de justiça limita e não permite é o acesso a informação que se encontra protegida numa investigação que está em curso. O grande problema do segredo de justiça não se prende com a liberdade de informação e de expressão que são liberdades consagradas na Constituição, mas existem outros valores que são mais importantes do que estes. A vida humana é mais importante que a liberdade de informação. O segredo de justiça existe como instituto jurídico com o objectivo de proteger as investigações e assegurar que estas são conduzidas a bom porto e que vão originar resultados e que os “maus” vão para a prisão ou parar ao tribunal para serem julgados. Portanto é um bom princípio. O problema não é a sua existência, é a forma como é usado e aí o problema não é tanto a liberdade de expressão, mas é a forma como tem sido usado na prática portuguesa, na prática judicial portuguesa.
Como protege as investigações? E como é que o faz? Coloca um manto de silêncio sobre as investigações. Mas isso continua a não impedir que os agentes da justiça, que estão de alguma forma relacionados com as investigações, continuem a passar informações aos jornalistas, como na realidade o fazem. Todos nós vimos relatos nos jornais de investigações que estão em segredo de justiça. Assim, existe alguém que dá as informações. São os agentes da justiça que põem em causa um princípio que deveriam defender. Por isso se estão envolvidos numa investigação deveriam garantir que o segredo de justiça não é quebrado. Não existem rabanadas de vento que entram nas janelas dos tribunais e que levam os processos para a rua, ou jornalistas que vão folhear os processos à pressa. Não! Os processos estão lá, as investigações estão a decorrer em diversos sítios e existem pessoas envolvidas nas investigações. São elas que libertam informações. Não são os jornalistas que andam a assaltar tribunais para consultar os processos. O segundo problema é que existe um manto de silêncio, um véu, sobre a investigação. Só sabe daquela investigação quem está a investigar. Essas pessoas podem passar para fora as informações que são convenientes e não existe nenhuma forma de comprovar se essas informações são boas. É muito possível que os agentes da justiça envolvidos nas investigações passem para fora as informações que pretendem num determinado momento ou em determinadas circunstâncias. A isto chama-se manipulação!
Existe uma fonte que manipula e o segredo de justiça tem sido usado pelos agentes da justiça para manipular a comunicação social. Para mim são esses os principais problemas do segredo de justiça. Por um lado é quebrado pelas pessoas que o deveriam proteger e pelas pessoas em nome das quais foi criado. Por outro é usado pelos agentes da justiça para manipular os jornalistas. Não é só pelo prazer de manipular os jornalistas, mas sim o efeito que se vai criar depois quando a informação é lida por milhares/milhões de pessoas. Através dos jornalistas vai-se manipular os portugueses. E isto é grave, extraordinariamente grave! É um comportamento antidemocrático. É um comportamento que não está sujeito a qualquer tipo de escrutínio. Ninguém vai lá ver o que está a ser dito ou feito. A prática abou por mostrar que o segredo de justiça, criado certamente com boas intenções é aplicado de forma absolutamente “rasca” e é um perigo para a democracia portuguesa. Perigo para os direitos dos cidadãos. Portanto, do meu ponto de vista, devia ser alterado. Devia ser menos absoluto do que é, não devia ser tão longo, por vezes protege 2/3 anos, devia ser restringido no tempo, precisamente para impedir esta situação que se vive (corrupção do segredo de justiça e o abuso do segredo).
Daniel – Posso acrescentar uma coisinha? Todas as grandes questões que se colocam aos jornalistas, e esta é uma delas, não correspondem à unanimidade das opiniões. O Paulo acabou de dizer o que pensava do segredo de justiça, eu tendo a ver as coisas por outro ângulo um pouco diferente. Mas assim como provavelmente não estaremos inteiramente de acordo nesta questão, há questões de direito, juízes, etc, em que também não estaremos. Uns defendem o reforço do segredo de justiça, outros defendem que o segredo deve ser aligeirado o mais possível. Então o que é que eu penso? Para contrapor aquela ideia que o Paulo vos passou, eu acho que quando decorre uma investigação tem que estar em segredo de justiça, porque a saída de informações nos jornais pode prejudicar a própria investigação e viu-se o que se passou com a Universidade Moderna em que em certa altura a Policia Judiciária foi fazer uma busca à Universidade e essa busca não se fez porque entretanto os responsáveis souberam, através de uma notícia do DN, e retiraram de lá toda a papelada que poderia servir de prova.
Chitas – Mas temos de dizer que nesta situação o DN teve acesso à informação através do Procurador-geral da República, que disse que ia existir uma busca (era uma informação “off-record” e a fonte não permitia a publicação), o jornalista é que não respeitou a situação e publicou a notícia, quando o objectivo do PGR era somente que o jornalista estivesse presente no momento da busca.
Daniel – No contexto e o contexto é este – vivemos num país em que a justiça não funciona da melhor maneira – os processos arrastam-se imenso tempo e acabam por existir fugas de informação. Estas são apenas informações que são passadas por baixo da mesa. Se não existissem fontes de informação o que poderia acontecer? (e não só por absurdo pois tem acontecido na prática): um processo fica escondido durante 5 anos e prescreve, não se sabendo o que se passa, podendo envolver as mais altas individualidades do Estado que se meteram em financiamentos e corrupções, que torturaram indivíduos para lhes sacarem informações. Mas o processo fica parado e prescreve. Ora se não houver uma fuga de informação que diga: “ atenção senhor jornalista atenção que existe este processo e que fulano é suspeito disto e daquilo”. Se os jornalistas não publicarem esta informação o processo não vai para diante e envolve uma pessoa importante e acaba por ficar na gaveta. Assim como esta situação existem outras, por exemplo, existe um processo em curso em segredo de justiça em que a polícia, e isto foi o caso da mãe de Joana, que se foi queixar de ter sido violentada pela polícia durante os interrogatórios. Não interessa qual a gravidade do crime, a policia não pode bater na senhora. Não é a polícia que pode sacar informações através de tortura. Ora quando a polícia a terá eventualmente torturado o processo estava em segredo de justiça, se não tivesse a informação vindo cá para fora aquela brincadeira tinha continuado na maior, sem que se soubesse e só no final do processo se saberia que ela tinha sido torturada para dar informações. Portanto há toda uma série de casos em que de facto as pessoas só sabem deles devido a uma fuga de informações.
Chitas – Daniel, eu, sobre isso, enquanto jornalista, gosto muito de fugas de informação. O meu ponto de vista não é de jornalista, é de um cidadão. Os jornalistas têm um papel importante, como outras classes profissionais, todas têm um papel a cumprir, mas antes disso, há coisas mais importantes que eu não sacrifico em nome da minha profissão; e uma dessas coisas é a lisura de processos, a democraticidade e a necessidade que julgo absolutamente central numa sociedade moderna, que é todos os poderes serem sujeitos a escrutínio e a verdade é que o processo judicial utiliza muitas vezes o segredo de justiça para impedir qualquer tipo de escrutínio, sobretudo aquele que pode ser realizado pelas pessoas que o podem fazer, nomeadamente os jornalistas e esse escrutínio não é realizável, por causa do segredo de justiça absoluto que é posto em prática e está consagrado na lei portuguesa. Acho extraordinariamente perigoso para a democracia e para uma sociedade livre e igualitária. Existe uma certa coisa que me preocupa muito no segredo de justiça que é a forma como ele é posto em prática, que leva, do meu ponto de vista, a que os jornalistas sejam manipulados pelas pessoas que estão a realizar as investigações. Se as janelas e portas da minha casa estivessem sempre fechadas e se eu decidir abri-las por vezes, um pouco, a ideia que se tem da minha casa é totalmente diferente daquela que se teria se as janelas e portas estivessem sempre abertas. E é isso que acontece com o segredo de justiça. É uma casa com as janelas e portas sempre fechadas e que, de vez em quando, se abre uma persiana e se deixa sair alguma informação, e a isto chama-se manipulação. A actividade das magistraturas e das pessoas que realizam a investigação em Portugal é muito importante e está demasiado no centro da democracia para que se possa praticar dessa forma.
Um processo pode estar em segredo durante cinco anos e se não existissem fugas de informação, nem se saberia que o mesmo teria caducado. Mas, para mim, o problema é esse instituto e a forma como é praticado. Se ele existisse só durante um período, por exemplo, seis meses e um ano, as pessoas que estão a fazer uma investigação tinham mesmo que as limitar. Porque, a partir de um determinado momento, tinha que se saber o que tinham andado a fazer. Se calhar, não andaram a fazer nada e o processo estaria na gaveta durante cinco anos. Se o segredo só fosse seis meses, era mais difícil esquecer-se um dossier dentro da gaveta. Alguém teria que dar justificação para o processo ter estado parado. Se calhar, a qualidade das investigações melhorava em relação ao que se passa actualmente. Nós, durante cinco anos, não podemos escrutinar o que eles andam a fazer. Eu recordo que, no Caso Casa Pia, se dizia que o Carlos Cruz tinha contas no Brasil mas, no processo, não apareceu nada sobre estas contas. Neste processo, foram libertadas informações muito importantes na perspectiva da manipulação dos jornalistas, coisa que só é possível devido à existência do segredo de justiça. Existe uma intenção inicial das pessoas que vão promover uma manipulação. O segredo ajuda os potenciais manipuladores a manipularem. Se o edifício fosse mais transparente, se as janelas e portas estivessem abertas, e se as pessoas que passam na rua pudessem escrutinar o que se passa no interior da casa da Justiça, essas coisas não poderiam acontecer e a manipulação era mais difícil. Continuariam a acontecer, certamente, mas não era facilitado por um instituto jurídico que fui criado e consagrado na lei portuguesa com uma intenção completamente diferente. A intenção era proteger as investigações, mas eu duvido, hoje em dia, nos casos que conheço e pela experiência que tenho, que ele seja utilizado para proteger as investigações. Acho que, na prática, o segredo acaba por prejudicar, muitas vezes, a própria investigação.
Daniel – Já agora, para podermos passar à frente, que eu já estou um pouco aflito, espero que o Paulo já vos tenha dito que, perante uma informação, o jornalista deve perguntar a si próprio – “Será isto verdade? Tenho alguma hipótese de confirmar esta informação, cruzando com outras? Ouvindo outras fontes? Ou não tenho?” E quando não tenho, posso tomar uma de duas atitudes: ou penso que, enfim, seguir o lema de um antigo chefe de redacção de um jornal americano , “Nunca deixar que a verdade te lixe uma boa história.”, e , aí, está a borrifar-se para a verdade e publica, que é o que faz se o jornal em que trabalha for sensacionalista e lhe der cobertura para publicar aquela notícia, sobre a qual existem dúvidas se é verdadeira e que veio de uma fuga de informação. E há uma outra atitude que nós já tomámos várias vezes aqui na Visão, que é aquela que é tomada pelos jornais e publicações mais sérias, e que consiste no seguinte: não temos hipóteses de confirmar, não publicamos. É, portanto, necessário, distinguir os jornais, as rádios e televisões entre as sensacionalistas e os sérios ou de referência. Uma informação pode sair num jornal sensacionalista mas, no mesmo dia, não sai num jornal sério, que recebeu a mesma informação, mas não a publica. Isto tem acontecido frequentemente. Agora, a propósito do caso do “rei da sucata”, vocês podem comparar o que vai sair no Público, que é um jornal sério e, por exemplo, aquilo que sai no Correio da Manhã ou no 24 Horas, que são jornais mais sensacionalistas. Provavelmente, têm acesso às mesmas informações, verificarão que algumas que saem no 24 Horas não saem no Público, apesar de termos a certeza que chegaram aos dois jornais.
7. Quando tomam conhecimento de um caso, conseguem logo perceber que o caso tem potencialidade para ser mediatizado?
Chitas – Sim, acho que sim, conseguimos perceber logo. Existe uma bateria de testes, digamos assim, que se aplicam aos factos para ver se estes têm potencialidade mediática. Isso chamam-se critérios de notiacialidade. Um desses critérios é o insólito. Há pouco, o Daniel dizia, no início desta conversa, que a Visão dava importância a determinados factos que tinham certas características, e focou o caso do candidato que deu um tiro no marido de uma outra candidata, no Norte do país, nas últimas eleições autárquicas. É insólito, pois os candidatos às Juntas não andam a dar tiros uns aos outros. Reparem noutro; há cinco anos, uma avioneta aterrou na auto-estrada do Norte. Todos os dias aterram milhares de avionetas mas o aterrar numa auto-estrada é notícia, pois não é suposto que elas aterrem nestes locais. Este é um critério que leva o jornalista a publicar a notícia. Portanto, é evidente que olhamos para um assunto e percebe-se se ele tem “sex-appeal” e potencial. Em certas situações, acaba umas vezes por ter mais e outras por ter menos potencial daquele que foi considerado, à partida, pelo jornalista. E não se esqueçam dos problemas éticos que a cobertura dos crimes levanta, desde logo, o princípio que os jornalistas deviam seguir e que nem sempre o referem, é que ninguém é culpado até a sentença transitar em julgado. Existe o princípio da presunção da inocência. E como é que isto se expressa nos jornais? Quando a polícia prende um tipo que, segundo esta, matou outro, exprime-se através da linguagem desse princípio. Dizemos “alegadamente matou” e não “matou” ou “a polícia acusa-o de ter morto”. E, com esta fórmula, preservamos o princípio da presunção da inocência. Esperamos que haja o julgamento e o indivíduo seja condenado. Ainda bem que procedemos assim porque, muitas vezes, as pessoas que a polícia prende sob a acusação de homicídio ou assalto, depois não se prova que foram elas e acabam por ser consideradas inocentes. Utilizamos uma linguagem que nos distancia das acusações. Chutamos para a esquerda. Se a polícia acusa, é isso que pomos no texto. Na verdade, a notícia não é que “ele matou “, mas que “foi acusado de matar”. Portanto, com recurso a essas expressões, nós procuramos deixar alguma margem para que o leitor pense “não se sabe ainda se foi ele. Está apenas a ser acusado ou é arguido.”. Tem que se esperar pela condenação para se poder dizer que foi o autor do crime.
8. Segundo o vosso ponto de vista, qual a ideia que o público tem da comunicação social?
Chitas – Eu acho que o público confia na Comunicação Social e que dá crédito às informações recolhidas pelos profissionais. Acho que, de uma forma geral, nos dá crédito e consideram que desempenhamos um papel importante na democracia portuguesa. Somos profissionais de informação que consagram, na prática, um direito consignado na Constituição da República. Isto é absolutamente vital numa sociedade moderna. Não quer isto dizer que não façamos coisas mal feitas, como, aliás, acontece em todas as profissões. Algum descrédito tem a ver com a informação televisiva e isto tem muito a ver com o poder muito forte e imediato e com a sua linguagem própria. Por vezes, as pessoas não percebem muito bem que o Big Brother não é informação. Este programa não é feito por jornalistas, é feito por entertainers. Mas, apesar de tudo, as pessoas valorizam o trabalho dos jornalistas.
A equipa



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